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domingo, 27 de maio de 2012

Morre o Nazista Klaas Carel Faber


 HISTÓRIAS
   Morre o Nazista Klaas Carel Faber
    "Nazi Klaas Carel Faber dies"

BERLIM – Morreu na quinta feira passada (24 de Maio de 2012) Klaas Carel Faber, um holandês que fugiu para a Alemanha após ser condenado na Holanda por vários crimes de guerra nazistas e que vivia em liberdade, apesar de inúmeras tentativas para tentar extraditá-lo. Ele estava com 90 anos.

A mulher de Faber, Jacoba, disse ao site de notícias holandês “de Nieuwe Pers” que ele morreu em um hospital na quinta-feira. Um funcionário do hospital em Ingolstadt, cidade da Baviera onde os Fabers viviam, confirmou a morte.
Faber, classificado pelo Centro Simon Wiesenthal como o 3 º na lista dos mais procurados criminosos nazistas, foi condenado à morte em Leeuwarden (norte da Holanda) em 1947 pela execução de 22 judeus e por colaborar com a ocupação nazista da Holanda durante a Segunda Guerra Mundial, mas a pena foi comutada por prisão perpétua

Entretanto em 1952, ele escapou da prisão de Breda, oeste de Holanda e fugiu para a Alemanha, onde vivia em liberdade.

Faber se salvou graças a sua cidadania alemã. Autoridades alemãs rejeitaram um pedido da Holanda no ano passado para a sua extradição, tentando aplicar um mandado de detenção europeu.

Em janeiro, o promotor Walter Helmut apresentou um requerimento para que Faber cumprisse sua pena em uma prisão alemã.

Ele disse que um tribunal Estadual em Ingolstadt não teria necessidade de reconsiderar a condenação do processo holandês, mas decidir se acataria o mandado de detenção europeu e decidir se a sentença contra ele poderia ser cumprida na Alemanha.

Faber nasceu na Holanda em 20 de janeiro de 1922.

Promotores holandeses disseram que ele foi condenado por assassinatos em três diferentes locais da Holanda entre 1944 e 1945, incluindo seis no campo de trânsito de Westerbork, para onde foram enviados milhares de judeus holandeses, incluindo Anne Frank , que ficaram internado lá antes de serem enviados para campos de trabalho ou campos de extermínio no leste europeu.
Segundo o Centro Wiesenthal, Faber serviu como voluntário na SS, uma organização paramilitar leal a ideologia nazista, depois que a Alemanha invadiu a Holanda durante a Segunda Guerra Mundial.

Ele também trabalhou para o Sicherheitsdienst, uma agência de inteligência nazista interna, e uma unidade SS de codinome Silbertanne (abeto), formada por 15 homens, a maioria deles holandeses, à qual foram atribuídas represálias por ataques da resistência holandesa a colaboracionistas.

A uma das unidades em que serviu, o Feldmeijer-Kommando também é atribuída a morte de 50 civis holandeses por sua posição "anti-alemã". 
Ele também trabalhou com seu pai, Pieter Faber, um colaborador da ocupação nazista da Holanda, que foi executado em 1948 por crimes de guerra.

A. autoridades holandesas solicitaram sua extradição pela primeira vez em 1954, porém Faber havia obtido cidadania alemã em razão dos serviço prestados para a Alemanha durante a guerra e assim o pedido foi rejeitado porque a Alemanha Ocidental se recusava a extraditar seus próprios cidadãos.
Em 1957 um tribunal em Dusseldorf rejeitou as tentativas para trazê-lo a julgamento na Alemanha, dizendo que não havia provas suficientes contra ele.

Após o fracasso, em 2004, de um pedido holandês para que fosse preso na Alemanha, os promotores de Munique receberam em 2006 novas provas da Holanda e consideraram a reabertura do processo, mas os promotores consideraram que ex-SS pode ter sido responsável pelas mortes (homicídio culposo), mas não poderia ser acusado de homicídio doloso e que a pena do crime em si já havia prescrito.

Em 2010, a Holanda pediu novamente a sua extradição, usando um novo mandado de detenção europeu.

Ele foi novamente rejeitado, pelo entendimento de que ainda seria necessário a extraditá-lo, pois o réu era um cidadão alemão.
Fontes
www.couriermail.com.au
www.volkskrant.nl
www.ultimahora.com
www.usatoday.com
http://actualidad.rt.com

quarta-feira, 23 de maio de 2012

70 anos do primeiro disparo da FAB

  HISTÓRIAS
  70 anos do primeiro disparo da FAB
     "70 years of the FAB's first shot"

Aviação de Patrulha
70 anos do primeiro disparo da FAB em combate na Segunda Guerra.
Segunda Guerra Mundial, litoral brasileiro. Há sete décadas, um bombardeiro B-25 realizava o primeiro ataque da Força Aérea na batalha do Atlântico Sul

O Brasil ainda não estava em guerra contra o nazismo, o Ministério da Aeronáutica contava apenas 15 meses de criação e os Capitães Aviadores Parreiras Horta e Pamplona estavam no meio da formação operacional nos bombardeiros B-25 B Mitchell. 

Entretanto, em uma tarde de 22 de Maio de 1942 eles escreveram seus nomes na história da FAB). E a tinta seriam as bombas lançadas sobre o inimigo.
Quatro dias antes, o navio Comandante Lyra havia sido atacado em águas brasileiras por um submarino italiano, a aproximadamente 330 km de  de Fernando de Noronha. Seria a oitava embarcação do país atingida pelas forças do Eixo.

Danificado por disparos de um torpedo, de bombas incendiárias e de disparos de canhão 100 mm e metralhadoras, o navio não afundou, mas pegou fogo e deixou uma imensa nuvem de fumaça, visível pelo trajeto em que seguiu rebocada até Fortaleza.

A guerra havia chegado à costa brasileira. Cada voo da FAB, mesmo os de treinamento, era realizado com a máxima atenção. Qualquer submarino ou embarcação que não pudesse ser identificada seria considerado hostil.

Bélgica, França, Holanda, Dinamarca, Noruega, Polônia e outros países da Europa, Ásia e África já haviam sucumbido e encontravam-se ocupados pelo Eixo. Crescia a importância estratégica do litoral brasileiro, fundamental para o esforço logístico aliado.

Assim, com todo esse cenário, os pilotos da FAB ao lado de militares da aviação do exército dos Estados Unidos, decolaram para mais uma missão de treinamento. Os brasileiros se revezavam nas funções de navegador e piloto da aeronave em vários trechos da missão.

Até que às 13h57 daquela sexta-feira, dia 22 de maio, um submarino foi avistado. O comandante do B-25, Capitão-Aviador Oswaldo Pamplona, não teve dúvidas e atacou o alvo. Era o batismo de fogo da FAB na Segunda Guerra Mundial.

A decisão rápida do aviador surtiu efeito. O submarino foi pego de surpresa. A 300 metros de altitude, o B-25 sobrevoou a embarcação da proa à popa e lançou 10 bombas de 45 kg. Em segundos, começaram as explosões próximas ao casco. Somente depois do lançamento começou o ininterrupto fogo antiaéreo. A embarcação iniciou uma curva e começou a expelir fumaça dos motores diesel. Enquanto o bombardeiro mantinha contato visual com o alvo e informava o comando sobre o ataque, os disparos do canhão continuavam, até que a aeronave desapareceu nas nuvens. Antes do pouso em Fortaleza, mais aviões já haviam decolado para caçar a ameaça inimiga na costa brasileira, mas o alvo não foi mais encontrado.

O submarino era o Barbarigo, da Regia Marina italiana. Era exatamente o mesmo que havia atacado o Comandante Lyra. Com 73 metros de comprimento, velocidade de até 30 km/h, 2 canhões de 100mm, 4 metralhadoras e 8 tubos para lançamento de torpedos, o Barbarigo foi o primeiro submarino atacado pela Força Aérea Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Até o final conflito no Atlântico Sul, 11 deles foram afundados em cerca de 15 mil missões de patrulha. Um número maior de ataques aconteceu.
A FAB utilizou vários modelos de aeronaves nas missões de defesa da costa brasileira, entre eles o PBY-5 Catalina, A-28 Hudson, PV-1 Ventura e PV-2 Ventura. Mas o B-25 já entrou em operação com fama operacional. O primeiro voo do modelo aconteceu em 1940, já durante a Segunda Guerra Mundial, mas o bombardeiro com as peculiares asas de gaivota invertidas participou do conflito em todas as partes do mundo.
Pouco menos de um mês antes do ataque brasileiro ao submarino Barbarigo, 16 aviões B-25 B americanos fizeram uma das mais famosas missões de bombardeiro na Segunda Guerra. A partir de um porta-aviões, decolaram e atacaram cidades japonesas como uma resposta à ação japonesa em Pearl Harbor, em abril de 1942. O “raide de Doolitle”, como a ação ficou conhecida em homenagem ao comandante da missão, começou a mais de 1.200 km de distância dos alvos, grande parte sobre território hostil, uma prova do longo alcance e dos bombardeiros. O fato é retratado no filme “Pearl Harbor”.

Quando o Capitão Pamplona decidiu atacar a embarcação desconhecida naquele 22 de maio de 1942, os aviadores da FAB estavam no comando de um dos bombardeiros mais modernos então em operação no mundo. O Brasil possuía 6 B-25, que voavam a partir da Base Aérea de Fortaleza no Agrupamento de Aviões de Adaptação, uma unidade criada para treinar os militares brasileiros para os aviões recém-adquiridos.

O Brasil foi o único país da América do Sul a receber esses bombardeiros ainda durante a Segunda Guerra Mundial. Até 1944, trinta B-25 dos modelos B, C, D e J foram recebidos para unidades que cumpriam missões de patrulha marítima, escolta de comboios de navios e treinamento de bombardeio, a partir das Bases Aéreas de Fortaleza, Recife e Natal. Um B-25C, que não foi formalmente transferido para a FAB, foi utilizado na Itália como avião de transporte de apoio ao 1° Grupo de Aviação de Caça, unidade que entrou em combate na Europa em 1944.
Com o fim da Guerra, milhares de aviões dos Estados Unidos ficaram disponíveis para programas de assistência militar, e o Brasil recebeu mais 64 B-25, do modelo J, o mais avançado. Essas aeronaves permaneceram em operação até 1970, tendo operado em esquadrões de bombardeio e até no 1° Grupo de Aviação Embarcada, mas sem pousos ou decolagens a bordo do porta-aviões, servindo apenas como plataforma para treinamento dos pilotos antes do recebimento dos bimotores P-16 Tracker.

Os B-25 também fizeram parte da dotação de esquadrões ainda ativos: o 1°/4° GAV, o 1°/5° GAV, o 2°/5° GAV e o 1°/10° GAV, onde cumpriam as missões de reconhecimento, hoje a cargo dos caças A-1. Já designados CB-25 e sem as metralhadoras de auto-defesa, esses aviões encerraram a carreira na FAB com missões de transporte em apoio a bases aéreas e parques de material de aeronáutica.

Brasil caçou submarinos ao longo da costa
A Segunda Guerra chegou às portas do Brasil em 1942. Em três anos, 71 embarcações foram atacadas em águas brasileiras por submarinos inimigos. No total, o país perdeu mais de 30 navios ao redor do mundo, a maior parte deles no litoral brasileiro. Cerca de 1.500 pessoas morreram. 
Com apenas um ano de criação, e em fase de reestruturação, a Força Aérea Brasileira foi convocada para patrulhar o litoral brasileiro. “A guerra submarina, perversa e implacável, prossegue num crescente vertiginoso”, escreveu Ivo Gastaldoni, piloto de patrulha e veterano da Segunda Guerra.

Em apenas três dias do mês de agosto de 1942, o submarino U-507 alemão afundou seis navios e matou 627 pessoas. Essa seqüência de ataques foi decisiva para que o Brasil declarasse guerra aos países do Eixo, em 22 de agosto.

O Brasil tinha como vizinhos as Guianas Francesa e Holandesa, ambas sob o controle nazista e que serviam como posto de abastecimento de submarinos inimigos. Os navios cargueiros com destino aos Estados Unidos, e de lá para o Brasil, precisavam de escolta aérea e naval.
No esforço de guerra, o Brasil criou novas bases aéreas, recebeu equipamentos e treinamento por meio de um convênio firmado com os Estados Unidos. Unidades Aéreas americanas foram enviadas ao país. Nascia a Aviação de Patrulha.

Fonte

www.fab.mil.br

domingo, 6 de maio de 2012

Heinkel HE-219 resgatado na Dinamarca


  HISTÓRIAS
   Destroços de um Heinkel HE-219 resgatados na Dinamarca
   "Wreckage of a Heinkel HE-219 rescued in Denmark"

Destroços de um caça da Segunda Guerra Mundial são resgatados do mar na Dinamarca.


Destroços enferrujados de um bimotor alemão Heinkel HE-219 da Segunda Guerra, do qual existe apenas um exemplar intacto no mundo, foram resgatados ao largo da costa dinamarquesa, conforme um comunicado do Museu Militar de Aalborg, na quarta-feira, 25/04/2012.

A maior parte dos pedaços da aeronave foram resgatados na segunda-feira, mas em um estado muito precário de conservação, em virtude dos longos anos em que permaneceram nas águas do mar, a pelo menos três metros de profundidade, na baía de Tannis, a oeste da ponta norte da península de Jutland.
"O Heinkel He-219 é um Caça Noturno, uma das aeronaves mais sofisticadas do seu tempo.", disse o presidente da Associação Dinamarquesa de Historiadores da Aviação, Ib Loedsen. "Foi um caçador furtivo que aproveitava a noite para atacar bombardeiros inimigos."
Era equipado com radar e assentos ejetáveis.

Uma cópia desta unidade, a única além dos destroços encontrados em território dinamarquês, está em exibição no Museu do Ar e do Espaço, em Washington, nos EUA.
O Modelo preservado daquele Museu foi encomendado em abril de 1943, possui cockpit pressurizado, medindo 15 metros de comprimento e 18 de largura. O alemães fabricaram cerca de 300 exemplares.

Ele era muito temido pelas aeronaves aliadas, das quais foi responsável pelo abate, em apenas duas semanas (em junho de 1943), de vinte e cinco bombardeiros da RAF, incluindo seis de Havilland "Mosquitos", conforme o site American Museum.
"Os destroços foram descobertos ao largo da costa da Dinamarca em Abril de 2011 graças a uma forte tempestade que atingiu uma parte do avião presa na areia.", disse um dos mergulhadores que trabalharam no resgate dos destroços do avião. 

Um breve histórico da aeronave.

O Uhu (Coruja de Rapina) é considerado por muitos o melhor caça noturno alemão da Segunda Guerra Mundial. Apesar de suas qualidades excepcionais, poucos exemplares foram construídos. 
A Heinkel estava entre as maiores e mais conceituadas fábricas de aviões da Alemanha dos anos 30 e 40. 

Entretanto, o que muitos julgam ter sido uma um certa dose de “má vontade” do RLM (ReichsLuftfahrtMinisterium, Ministério da Aviação do Reich), e de seu todo poderoso General Erhard Milch em relação a companhia Heinkel, atrapalhou o desenvolvimento da aeronave.

A Heinkel continuou a desenvolver e a construir o modelo apesar da falta de encomendas. O projeto do He 219 começou em 1940 como um avião militar multifuncional e somente em fins de 1941 o modelo se tornou um caça noturno “puro” efetuando seu primeiro vôo em Novembro de 1942.

Houve um encomenda de 300 aeronaves He 219A, incluindo as 130 aeronaves He 219A-0 de pré-produção inicial.

Em apenas seis missões de combate, a nova arma abateu 20 bombardeiros da RAF, incluindo seis Mosquitos, uma aeronave inimiga que nunca havia sido abatido durante a noite.

O estrondoso sucesso do Heinkel He 219 levou os pilotos a pediram mais aeronaves. A Heinkel colocou as unidades fabris de Marienehe e Oranienburg a disposição do He 219. Uma produção de 100 aviões por mês estava prevista, mas em razão dos incessantes bombardeios aliados, nunca foi possível passar da cota de 12 aparelhos mensais.

Equipado com o poderoso sistema de radar frontal FuG 220 SN-2 “Lichtenstein”, radares traseiros, antenas de rádio sofisticadas, assentos ejetáveis e o terrível canhão de 30 mm instalado a ré da cabine, atirando em um ângulo de 180 graus - “Schräge Musik” (Música Oblíqua, o termo com que os alemães então denominavam o Jazz americano, por seu ritmo frenético).

Foi uma aeronave que poderia ter causado um considerável estrago nas forças de bombardeiros noturnos dos aliados, se as intrigas políticas não tivessem sufocado seu desenvolvimento.


Especificações (He 219 A-5)

Classe: Caça Noturno Bimotor

Tripulação........................... 2 homens
Comprimento.......................... 16,34 m 
Envergadura.......................... 18,50 m.
Altura............................... 4,15 m.
Peso vazio........................... 8.350 kg.
Peso Carregado....................... 15.150 kg.
Velocidade máxima.................... 615 km./h.
Teto de serviço...................... 9.800 m.
Alcance Normal....................... 2.850 Km.

Motor:
2 DB 603E de 12 cilindros em V invertido (1.900 hp)

Armamento:
2 MG151 de 20 mm montado numa célula ventral
2 MG151 nas asas
2 MK108 de 30 mm posição dorso/traseira - ângulo de 65º (Schräge Musik)

Vídeo Heinkel He 219 "Uhu"
Fontes

http://guerra-abierta.blogspot.com.es/
www.diasdehistoria.com.ar
www.7sur7.be
www.infobae.com
www.thelocal.de
www.luftwaffe39-45.historia.nom.br

domingo, 8 de abril de 2012

A Última Viagem do Wilhelm Gustloff

   HISTÓRIAS
  A Última Viagem do Wilhelm Gustloff
    The Last Voyage of the Wilhelm Gustloff


Todo mundo já leu ou ouviu falar sobre o naufrágio do Titanic (que completou cem anos no dia 15 de Abril de 2012), e muito pouco se fala sobre o afundamento do Wilhelm Gustloff, um desastre marítimo muito maior.


No final de Janeiro de 1945, bem próximo ao fim da Segunda Guerra Mundial, uma multidão de alemães fugia do cerco soviético na Europa Central.

A situação das tropas alemãs na Prússia Oriental havia ficado insustentável.

Enfrentando temperaturas de até 20 graus negativos, a desesperada massa humana, formada na maioria por mulheres e crianças, tentava chegar até a costa do Mar Báltico na expectativa de embarcar em um navio rumo ao Ocidente.

A retirada de civis alemães tornava-se urgente e foi planejada a evacuação por mar (Operação Hannibal) no Navio Recreio Wilhelm Gustloff, partindo do porto de Gotenhafen com milhares de refugiados que se acumulavam pela cidade.
O Wilhelm Gustloff pertencia à Organização Nazista KDF (Força pela Alegria), e era usado para cruzeiros de férias. A exemplo do Titanic, era um enorme navio de passageiros novo (e relativamente luxuoso). 
Força pela Alegria: Símbolo da KDF (Kraft durch Freude) 
O comando da nave estava ao encargo de Friederich Petersen e Wilhelm Zahn. 

Contava com uma tripulação provisional (apenas para manutenção em funcionamento), pois estava ancorado havia mais de quatro anos, servindo como quartel flutuante no cais.

O navio deixou o porto em 30 de Janeiro de 1945 com aproximadamente nove mil e seiscentos refugiados e mais (quase) mil tripulantes.
Partiu da Baía de Gdansk e contornou seu cabo, tomando curso em uma rota desimpedida por vários caça minas da Kriegsmarine. Ao cair da noite, avistou-se, da ponte de comando, uma outra flotilha de caça minas navegando em sentido contrário, sendo dada ordem para acender as luzes de navegação, um erro fatal.

O submarino russo S13 (capitão Alexander Marinesko) estava na área e avistou as luzes do grande transatlântico.
Marinesko estava respondendo a um inquérito da policia política soviética, o NKVD por faltas e erros absurdos causados por alcoolismo, e viu no “grande navio alemão” que se aproximava, sua esperança de reabilitação.
Ordenou que quatro torpedos fossem preparados e disparados, no primeiro escreveram "Pela Pátria", no segundo, "Por Stálin", no terceiro, "Pelo o povo soviético" e no quarto, "Por Leningrado".

Uma ironia do destino fez com que somente o torpedo Stálin errasse o seu alvo.  Os demais atingiram o navio na proa, abaixo da piscina e a meia nau.
O Wilhelm Gustloff ainda resistiu por 62 minutos antes de ir a pique, às 22h18.

Os passageiros tomados de pânico, não conseguiram soltar a maior parte dos escassos botes salva-vidas, cujas amarras estavam congeladas.
Estima-se, pela confusão nos registros, que de 8 a 9,6 mil pessoas perderam a vida nas águas geladas (no Titanic morreram 1.523, para se ter uma idéia de comparação). Apenas 964 sobreviveram.

Pesquisas recentes indicam que havia no navio 10.582 pessoas, sendo que dos 964 náufragos resgatados ainda com vida, vários vieram a perecer alguns dias após a tragédia.
Das vítimas, cerca de 4.000 eram crianças e adolescentes, além de vários soldados feridos e refugiados de guerra.

Vídeo: Wilhelm Gustloff

Fontes
www.dw.de
www.natvan.com
www.jornalorebate.com.br
www.oceanliners.com
www.wrecksite.eu
http://lambaritalia.blogspot.com.br
http://pt.wikipedia.org

sábado, 31 de dezembro de 2011

O Ano Novo


  HISTÓRIAS
  O Ano Novo
    "The New Year"

Volto aqui a Roma depois de 11 dias intensos na frente brasileira. A descrição detalhada destes últimos dias serviria para desiludir algum espírito ingênuo e otimista capaz de julgar ser a vida do correspondente de guerra na Itália ou em qualquer outro front do mundo, um paraíso movimentado e colorido. Não quero me prolongar muito a respeito, mas quando o leitor souber que entre o dia 25 de dezembro último e este 2 de janeiro só me foi possível tomar um banho, apressado e econômico, poderá por si mesmo tirar outras conclusões a propósito da vida que levamos aqui. Mas é lógico que isto não acontece somente com os correspondentes, obrigados a andar de um lado para o outro, sem pouso certo para dormir ou para comer. A guerra é, na sua totalidade, uma coisa incômoda, incômoda para o general, para o coronel, para o pracinha ou para o correspondente.

As noites de 26, 27, e 28 haviam sido terríveis. Sabíamos mais ou menos o que estava acontecendo, porque o coronel havia chamado todos nós e, diante de um mapa minucioso, explicado as ultimas manobras e intenções do inimigo. As últimas informações de partigiani chegadas ao 5º exército revelavam a marcha de quatro ou cinco divisões nazi-fascistas do norte italiano para o sul, e tudo mostrava que os alemães, à semelhança do que estava fazendo na frente do Ocidente europeu, tencionavam dar inicio a uma grande ofensiva até o porto de Livorno.
A investida nazista contra uma divisão negra norte-americana e a reconquista de Barga, num setor que meses atrás estava sendo defendido pelos brasileiros, não queria dizer outra coisa. A verdade, porém, é que tudo acabou bem, como devem ter lido nas noticias telegráficas das agências.

Barga foi novamente libertada pelos aliados e os nazistas empurrados para além de suas linhas anteriores. Entre a investida nazista e o contra ataque aliado, que libertou, a pequena cidade medieval esteve perto de dois dias nas mãos dos alemães. O tempo foi pouco, mas o suficiente para que os tedescos cometessem contra a população algumas de suas típicas barbaridades. Homens e rapazes válidos foram mandados para o trabalho forçado no norte italiano, alguns elementos partigiani presos e torturados. 

Sigo amanhã cedo para lá, juntamente com alguns outros correspondentes estrangeiros, o que significa dizer que dentro de poucas horas a história da curta ocupação de Barga poderá ser revelada em todos os seus detalhes.

A notícia de que os alemães estavam avançando na Itália lançou o pânico nas populações vizinhas à frente de batalha. Os civis nos seguravam nas ruas para saber das últimas notícias. Um medo angustioso e desesperado estava estampado nos rostos aflitos que nos indagavam se era verdade que os tedescos estavam vindo de volta. Por alguns instantes, nas estradas e caminhos da frente noroeste aliada, podia-se contemplar um dos espetáculos mais comuns desta guerra: filas de civis, com pertences às costas, fugindo de um inimigo que parecia retornar com a mesma fúria e implacabilidade dos seus primeiros avanços, naqueles distantes dias em que a guerra era uma coisa sua.
Barga, nos dias atuais
Lembrei-me, então, de muitos dos muros pichados nas cidades e povoados livres dos nazistas, e fiquei a imaginar comigo mesmo qual seria a reação das SS ou da Gestapo diante de frases como estas: “Viva a Inglaterra!” “Viva a Rússia!”, “Morte aos fascistas!”. “Os tedescos precisam ser eliminados!”. “A América toda-poderosa nos salvará!”. Possivelmente, os muros pichados de Barga terão justificado os dois dias de crueldade nazistas, se é que o alemão necessita de qualquer justificativa para praticar os seus crimes.

A revelação de que os tedescos foram derrotados e estavam fugindo para os seus montes e casamatas nos chegou numa madrugada, quando tentávamos adormecer sob o tiroteio que visava o quartel avançado das tropas brasileiras. Voltamos a descer pelos Apeninos, até nosso Quartel-general Avançado, e o último dia de 1944 nos encontrou aboletados num jipe a caminho do que Roma representava para nós, esgotados por noites intranquilas e atormentados pela neve e pela poeira de mil caminhos: um bom banho quente, uma cama macia e confortável, uma luz regular com a qual é possível ler alguma coisa, informações e noticias em dia do mundo.

Mas o triste é que vim encontrar o Hotel de la Ville, “o lar dos correspondentes”, como explica uma de suas tabuletas na porta da frente, inteiramente tomado, sem um único quarto para o "povero brasiliano rovinato".
Tenho que passar esta última noite de 1944 no quarto de um colega neozelandês, comprido e falador, pois que só amanhã o aflito gerente me conseguirá uma cama e um banheiro meus. Esfrego o rosto apressado, e ainda com os olhos ardendo de poeira vou lá para baixo, para o bar, onde uma multidão complexa e diferente canta e dança como componentes de uma só família. O ano de 1945 me encontra cochilando numa poltrona, defronte uma lareira apagada e diante de um conhaque vermelho e sem gosto. Foram as badaladas do Big Bem, irradiadas de Londres para os correspondentes do Hotel de la Ville, que me despertaram, e aqui eu faço votos para que nunca mais aconteça, em toda a minha vida, uma outra passagem de ano semelhante.

Não devo esquecer também o gesto espontâneo e gentil da bela correspondente sul-africana (ela se chama Norinha). Meia noite, ela me bateu no ombro e ergueu uma taça de champanhe. Suas faces estavam coradas, a luz brilhava nos seus cabelos pretos e sua voz veio até mim como uma coisa inesperada, mas muito desejada:

- Feliz Ano-novo para os brasileiros.

Foi um pequeno instante de felicidade que fico devendo à África do Sul

Texto extraído do livro "O Inverno na Guerra" de Joel Silveira. 
Joel Silveira (1918 - 2007) era jornalista e escritor. Correspondente de guerra pelo Jornal Os Diários Associados, cobriu as ações da FEB na Itália.

Joel Chegou à Itália durante o rigoroso inverno de 1944 e acompanhou a luta dos brasileiros até a tomada de Monte Castelo. Ao narrar sua experiência como correspondente de guerra, declarou: "A guerra é nojenta, e o que ela nos tira (quando não nos tira a vida), nunca mais devolve."

Antes de embarcar para a Itália, Assis Chateaubriand, seu patrão, proprietário do jornal, lhe advertiu: "- Você vá, mas não me morra!"


Vídeo: Eu Estive na Guerra - Joel Silveira


Fonte:
http://books.google.com.br

domingo, 18 de dezembro de 2011

A Bomba Atômica do Japão


 HISTÓRIAS
  A Bomba Atômica do Japão
   "The Japan's Atomic Bomb"


Existem vários indícios de que o Japão possuía um programa nuclear mais desenvolvido do que comumente se imagina, e também que houve uma estreita cooperação entre as potências do Eixo, incluindo trocas secretas de materiais bélicos.

Não é nenhuma novidade o fato de que os principais físicos do Japão foram reunidos, desde meados de 1940, para pesquisar as aplicações militares da fissão nuclear.


O submarino alemão U-234, que se rendeu a forças dos EUA em Maio de 1945, estava transportando, entre outras coisas, 560 kg de óxido de urânio destinado ao Programa Nuclear que envidava esforços produzir a bomba  atômica do Japão.
O óxido de urânio continha cerca de 3,5 kg de isótopo U-235,  cerca de um quinto do total de U-235 necessário para produzir uma bomba.


Ao longo da década de 1930, o Japão se igualava às maiores potências nos desenvolvimentos experimentais da física.  O renomado cientista japonês Yoshio Nishina, inclusive havia trabalhado vários anos em  Copenhagen, nos laboratórios de Niels Bohr.
Os japoneses também estavam em um estágio avançado nas técnicas de construção de  ciclotrons, com um pequeno dispositivo instalado em Tóquio.


Depois da  rendição Japonesa, em 15 de Agosto de 1945, o Exército de ocupação dos EUA encontrou cinco dos ciclotrons japoneses, que poderiam ser utilizados para separar material físsil do urânio comum. Os norte-americanos quebraram os ciclotrons e atiraram o que restou deles na Baía de Tokyo.
No outono de 1940, estudos do Exército japonês concluíram que a construção de uma bomba atômica era viável.


Os anos 1940 e 1941 foram um período de intenso interesse militar nas possibilidades de armas atômicas.


Em 1941, o então Primeiro-Ministro e Ministro da Guerra Hideki Tojo determinou que o projeto (codinome Ni-Go) da bomba japonesa, patrocinado pelo Exército fosse realizado pelo Instituto de Pesquisas Físicas e Químicas (RIKEN), com mais de 100 pesquisadores sob a direção do renomado Yoshio Nishina.
A Marinha japonesa também reuniu esforços para criar a sua própria "Superbomba" em um projeto batizado "F-Go" (F de fissão), comandado pelo físico Bunsaku Arakatsu.
Em 1942, em Kyoto, o projeto da Marinha teve início com o objetivo principal de substituir petróleo por energia nuclear. O petróleo se tornava um bem precioso cada vez mais escasso, minando o esforço de guerra japonês.


O Instituto de Pesquisas Físicas e Químicas e uma instalação de pesquisas em Hungnam, na Coréia ocupada - também colaboraram com esses esforços. 


No entanto, o empreendimento científico-militar não foi provido de recursos adequados, e o esforço da Marinha japonesa para fabricar a bomba atômica teve poucos progressos até o final da guerra.


Os esforços nucleares no Japão foram interrompidos em Abril de 1945, quando uma incursão de bombardeiros B-29 danificou o equipamento de separação por difusão térmica de Yoshio Nishina.
Alguns relatos afirmam os japoneses transferiram suas operações de pesquisa atômica para  Konan (Hungnam, atualmente) na Coréia do Norte). 


Os japoneses podem ter usado esta instalação para produzir pequenas quantidades de água pesada.


Esta "fábrica" japonesa foi capturada por tropas soviéticas no fim da guerra, e existem indícios de que a produção da planta de Hungnam era coletada mensalmente por submarinos soviéticos.

Poderiam os japoneses fabricar uma bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial?


Historiadores, tanto japoneses como americanos, chegaram a conclusão de que o Japão não possuia urânio, recursos, ou um empreendimento em grande escala nos moldes do Projeto Manhattan.  


Assim, esta ameaça, como acabou sendo (provavelmente) o caso da Alemanha Nazista, não era real.


Porém a importância histórica do projeto não está no fato do Japão haver falhado, mas no fato de haver  tentado, e também na atitude do Japão do pós-guerra - colocando-se como uma nação vítima da bomba atômica, sem interesse em armas nucleares - não ser totalmente verdadeira.


Os registros históricos mostram a ânsia dos militares e a disposição em cooperar dos cientistas. Se outros acontecimentos tornassem a bomba atômica japonesa uma realidade, provavelmente eles  não teriam hesitado em usar a bomba contra seus inimigos, mesmo contra a vontade do Imperador Hirohito que era contra o plano da bomba atômica desde o início.
O imperador acreditava que o uso de uma bomba atômica significaria o extermínio de toda a humanidade. Finalmente, perto do fim da guerra, as pesquisas para a bomba atômica japonesa foram encerradas por ordem do Imperador.


Vídeo: Japan's Atomic Bomb (History Channel)


Fontes:
http://herdeirodeaecio.blogspot.com
http://en.wikipedia.org
www.fas.org
www.fortfreedom.org
www.grunt.com

domingo, 4 de dezembro de 2011

Os Diários de Friedrich Kellner



 HISTÓRIAS
 Os Diários de Friedrich Kellner
   The diary of Friedrich Kellner

Diários revelam detalhadamente que informações sobre crimes nazistas estavam disponíveis, porém foram ignoradas - por conveniência.

Escritos recém-publicados de um funcionário do judiciário da era nazista documentam em detalhes o que muita gente convenientemente ignorou. 

Embora muitos alemães alegassem que nada sabiam a respeito dos crimes nazistas, as observações de Friedrich Kellner demonstram que tais informações estavam disponíveis a todos os seus patrícios.

O penúltimo ano da guerra iniciou com um discurso que exortava os alemães a perseverar. A Itália não era mais aliada da Alemanha, e o exército soviético aproximava-se perigosamente das fronteiras da Polônia, da Hungria e da Romênia. O desembarque aliado na França era iminente. Após transmitir a sua mensagem aos soldados e a todos os alemães, Adolf Hitler voltou a sua atenção para o próprio Deus no seu discurso do Ano Novo de 1944. “Ele está consciente da nossa luta”, disse Hitler. “A justiça de Deus continuará a nos colocar a prova até que Ele possa emitir um julgamento. O nosso dever é garantir que não tenhamos uma aparência frágil aos olhos Dele, e que recebamos um julgamento misericordioso que diga 'vitória' e que, portanto, signifique vida!”.

Dois homens muito diferentes no Reich alemão anotaram em seus diários, suas ideias sobre a manifestação de sentimentos religiosos de Hitler. O primeiro, Victor Kelmperer, morava com a sua mulher em uma “casa para judeus” em Dresden, onde ele escreveu sobre o ditador, usando um nome falso: “Novo conteúdo: Karl torna-se religioso (a nova abordagem consiste em aproximar-se do estilo eclesiástico)”.
Victor Klemperer e a primeira edição de seus Diários
O segundo, Friedrich Kellner, morava com a mulher em um apartamento oficial no prédio residencial do tribunal de justiça da cidade de Laubach, no Estado de Hesse, onde ele redigiu a sua narrativa da guerra num gabinete improvisado em uma sala de estar. No seu comentário sobre o discurso de Hitler, Kellner escreveu: “Deus, que tem sido insultado por todos os nacionais socialistas devido às políticas oficiais destes, está agora sendo alvo de súplicas do Führer em um momento de dificuldades. Que estranha hipocrisia!”.
Friedrich e Pauline Kellner em 1914
O diário extenso de Klemperer, um professor de Literatura de Línguas Neolatinas que foi demitido do seu emprego em Dresden, "por ser judeu" (apesar de ser protestante - seus pais eram judeus) foi publicado em 1995 sob o título Ich will Zeugnis ablegen bis zum letzten (Eu serei a última testemunha). Esse talvez seja o mais importante documento particular sobre os nazistas, porque ele proporciona um relato extremamente lúcido e detalhado dos 12 anos do “Reich de mil anos” sob o ponto de vista de uma pessoa que se encontrava marginalizada. O relato detalha pequenos estorvos e grandes crimes - a vida cotidiana e o desenvolvimento da propaganda nazista. Graças ao "casamento misto" (expressão usada pelos nazistas ao se referirem a casais dos quais só uma pessoa é de origem judaica), Klemperer sobreviveu e não foi deportado, como a maioria dos judeus - apesar de não estar seguro que isso não fosse acontecer.

Esse documento possui agora um congênere, os diários do Inspetor Judicial Friedrich Kellner. O livro de 900 páginas começou a ser escrito em setembro de 1938, e é narrado sob a ótica de um cidadão alemão que não era nazista. Ele revela também quais informações os alemães poderiam ter obtido a respeito dos nazistas, caso desejassem.
Páginas do diário original de Kellner - 10 volumes com recortes e observações
Uma família comum

Kellner, nascido em 1885, poucos anos depois de Klemperer, não era um homem privilegiado. Seu pai era padeiro e sua mãe, arrumadeira. Ele fez carreira no judiciário, após formar-se na Oberrealschule, uma escola superior vocacional. Aos 22 anos, Kellner concluiu o seu período de serviço militar obrigatório de um ano como soldado de infantaria na cidade ocidental de Mainz e, em 1913, casou-se com Paulina Preuss, uma secretária. O único filho do casal nasceu três anos depois, quando Kellner retornou do front francês após ter sido ferido na Primeira Guerra Mundial.
Eles eram uma família comum de classe média baixa, mas eram também politicamente ativos. Ele distribuía panfletos, fazia discursos e recrutava novos membros para o Partido Social-Democrata. Kellner havia lido o livro de Hitler, “Mein Kampf” (“Minha Luta”), e levou a obra a sério, afirmando que o livro havia envergonhado Gutemberg.
Friedrich Kellner aos 23 anos em em 1908, com camaradas do Exército.
Ele está sentado, (segundo da direita) usando uma boina.
A trança no peito o identifica como franco-atirador
Após as eleições de 1932, nas quais o Partido Nazista tornou-se a facção mais poderosa no Parlamento alemão, o Reichstag, Kellner solicitou a sua transferência de Mainz. Em 1933, duas semanas antes de Hitler tornar-se chanceler do Reich e da primeira onda de terror interno, ele começou a trabalhar como funcionário público no Tribunal Distrital de Laubach. Kellner era um desconhecido em uma cidade na qual havia uma forte simpatia por Hitler. Foi lá que Kellner escreveu o seu diário: uma conversa que ele teve consigo próprio devido ao desespero, mas também uma análise do presente e um legado planejado.

“O objetivo do meu registro”, começou ele, em 26 de setembro de 1938, “é retratar o clima atual ao meu redor, de forma que nenhuma geração futura sinta-se tentada a construir um grande acontecimento" baseado no que está acontecendo agora ("um período heroico" ou coisas semelhantes). Na mesma passagem, e no mesmo dia, Kellner revelou uma visão amarga e clara, ao resumir a história alemã de pós-guerra em uma sentença: “Aqueles que desejam conhecer a sociedade contemporânea, com as almas dos bons alemães, deveriam ler o que eu escrevi. Mas eu temo que restarão pouquíssimas pessoas decentes após os eventos ocorridos, e que a culpa não terá interesse em ver a sua desgraça documentada por escrito”.
Friedrich Kellner em 1940.
Dez volumes escritos documentaram os fatos que Kellner experimentou e observou e, acima de tudo, aquilo que ele leu e ouviu. Kellner recortou discursos e convocações de jornais e os analisou e escreveu notas sobre leis e decretos. Ele contrastou a informação fornecida pelo governo com os fatos, tanto no cotidiano de Hessen quanto no front distante. Kellner escutava, quando podia, estações de rádio estrangeiras. Mas, acima de tudo, ele analisava a propaganda sob um ponto de vista crítico. Ao comentar o “Tratado de Amizade” de 1939 com a União Soviética, ele escreveu: “Nós tivemos que apelar para uma aliança com a Rússia a fim de que pudéssemos ter pelo menos um amigo. Logo a Rússia, dentre todos os países. Os nacional-socialistas devem a sua existência inteiramente à luta contra o bolchevismo (Inimigo Público Número Um, Pacto Anti-Comintern). Para onde foram vocês, guerreiros desaparecidos que tanto combatiam a desgraça oriental?”.

Recortes e evidências

Menos de dois anos mais tarde, os guerreiros retornaram, para prevenir um suposto ataque por parte da União Soviética. Em 22 de junho de 1941, Kellner escreveu no seu diário: “Mais uma vez, um país tornou-se vítima do pacto de não agressão com a Alemanha. Não importa como as nossas ações estejam sendo justificadas, a verdade será encontrada somente na economia. Os recursos naturais são o trunfo. E, se vocês não obedecerem, eu estou preparado para recorrer à violência”. Mas praticamente ninguém enxergava os acontecimentos como ele. As mulheres, durante o chá, gostavam de se referir aos alemães que “tomavam” uma cidade, uma região ou até mesmo um país inteiro. Kellner estava horrorizado, tanto pela tolice quanto pelo barbarismo das pessoas a sua volta.
Usando recortes de reportagens militares, obituários daqueles que morreram “pela grandeza e pela liberdade da Alemanha”, caricaturas, artigos de jornais e conversas com pessoas comuns, Kellner criou uma imagem da Alemanha nazista que jamais existiu de uma forma tão vívida, concisa e controversa. Até então, as discussões sobre a culpa alemã flutuavam dentro de um universo amplo situado entre duas posições opostas. Um lado enfatiza a campanha de desinformação deliberada da propaganda nazista e a ideia de que os cidadãos comuns viviam em estado de medo e terror, concluindo que eles não tinham como saber melhor o que estava acontecendo. O outro lado adota a posição oposta, afirmando que a maioria dos alemães estava consciente de tudo.

Os escritos de Kellner nos permitem ver o que todo mundo poderia ter sabido a respeito da guerra de extermínio no leste, dos crimes contra os judeus e dos atos de terror cometidos pelo Partido Nazista. Ele escreveu a respeito das execuções de “pragas” que fazem observações “derrotistas” e sobre “higiene racial”. Em julho de 1941, Kellner escreveu: “Os hospitais psiquiátricos transformaram-se em centros de assassinato”. Uma família que havia levado o filho a uma instituição psiquiátrica recebeu mais tarde, por engano, a informação de que ele havia morrido e que as suas cinzas seriam entregues em breve. “O departamento esqueceu de remover o nome do rapaz da lista da morte. Como resultado, o assassinato deliberado foi revelado”, relatou Kellner.

Sob a vigilância nazista

Quem lê os diários de Kellner e descobre aquilo que os alemães poderiam ter sabido, sente-se tentado a refletir sobre como surgiu a expressão “Nós nada sabíamos sobre essas coisas!”. Segundo Kellner, as pessoas simplesmente ignoraram as informações disponíveis, ou por terem preguiça, ou por sentirem entusiasmo pelas vitórias bélicas alemãs. Quando essa negação da realidade deixou de funcionar, quando muita coisa foi revelada a respeito daquilo que os nazistas estavam fazendo em nome da Alemanha, a maioria dos alemães não tinha mais como retroceder. “'Eu fiz isso, diz a minha memória”, escreveu Nietzsche. “'Eu não poderia ter feito isso, diz o meu orgulho, de forma inexorável. Um dia, a memória acaba cedendo”.
O próprio Kellner escreveu que “esta patética nação alemã” tem sido mantida refém pelos perpetradores. “Todo mundo está convencido de que nós temos que triunfar, de forma que não estamos completamente perdidos”. Os próprios nazistas advertiram a população para a vingança dos perpetradores. Para a maioria dos alemães, o único desfecho concebível para a guerra era a vitória – ou o aniquilamento total.

Kellner viveu até 1970. Apesar de ter sido colocado sob vigilância pelo partido e de ser questionado várias vezes, ele conseguiu evitar que fosse enviado para um campo de concentração. Em uma denúncia redigida em 1940, um oficial nazista chamado Engst escreveu: “Se quisermos prender pessoas como Kellner, teremos que atraí-los dos cantos em que eles se encontram e possibilitar que eles próprios se coloquem na posição de culpados. O momento não é propício para uma abordagem como aquela que tem sido usada com os judeus. Isso só poderá ocorrer após a guerra”.

No epílogo do livro, o neto do autor descreve a história da publicação dos diários de Kellner. A princípio os editores alemães não se mostraram interessados. Mas os diários atraíram atenção, quando, em Abril de 2005, a revista alemã Der Spiegel noticiou que o ex-presidente dos Estados Unidos George Bush havia examinado os cadernos oficiais de Kellner na Biblioteca Presidencial George Bush, da universidade do Texas.
Agora que finalmente foram publicados, os volumes provavelmente encontrarão um lugar ao lado dos diários de Klamperer nas bibliotecas alemãs e também nas prateleiras das livrarias.

Elke Schmitter (Der Spiegel)

Fontes:
www.spiegel.de
www.worldwar1.com
http://commons.wikimedia.org